Fonte: O Povo Online
domingo, 25 de outubro de 2009
Junto e misturado
postado por diboaA batida que servia de base para a voz do MC se amplia e ganha outras referências & a produção e a divulgação acompanham o ritmo e seguem a música na cultura hip hop.
Sabe aquela batida seca, um tum-tum ritmado, mas cansativo? No Ceará, não tem disso, não. Quer dizer, quase não tem mais. Hoje, a produção de rap no Ceará & Fortaleza, principalmente & quer usar pandeiro, sanfona e triângulo. Quer falar de problemas que os moradores do Pirambu, Conjunto Ceará, João XXIII e Bom Jardim vivenciam, quer ser entendido e, também, quer tocar nos gradientes e iPods de muita gente. Seja o grupo que escolheu fazer do rap um instrumento político, seja aquele que trabalha como muita gente: a música pela música.
``O nosso trabalho é criar estilos e tentar passar isso para os meninos & usando pandeiro, rabeca, acordeon``, conta Cristiano Silva, o DJ Doido, membro do Movimento Cultura de Rua (MCR), e da Central Única das Favelas (Cufa). Erivan Sales, o Erivan Produtos do Morro, nome também da gravadora que mantém no Castelo Encantado, no Mucuripe, concorda com a mudança. ``Alguns grupos queriam só fazer música estilo rap de São Paulo. Depois a ficha caiu, eles perceberam que você tinha que ser você mesmo. Aí o pessoal começou a fazer com estilo próprio. Tem uns caras que já tem uma ideia avançada, bota o rap com uma mistura de samba, de música nordestina``.
Rap do Nordeste
Dos grupos que recebe no estúdio, Erivan calcula que cerca de 80% deles já fazem a escolha pelas sonoridades provenientes do Nordeste, como o velho forró. ``Luiz Gonzaga é uma das maiores referências, mas colam também Jackson do Pandeiro``, detalha. E a mistura vale para o rap como vale para qualquer produção musical. Tendo como fiel amigo, claro, a cola ou o sample (técnica de recortar trechos de músicas). ``Minhas referências vão desde Baden Powell, passando por Agnaldo Timóteo, até Limão com Mel``, enumera Cristiano, que também é DJ do Comunidade da Rima e gerencia o estúdio Subversom Estúdio, no Centro.
Mas não só de música popular brasileira vive o rap. Outras sonoridades continuam se infiltrando na produção. Francisco Moacir Lobão Jr., o Lobão do MH2O, lembra que ``a MTV chegou com tudo, começou a mostrar o que era feito lá fora. Muita gente se deixou influenciar por isso, as batidas foram mudando. A preocupação maior era com a letra``. O discurso político, embrião do movimento hip hop, continua para uns. ``Para mim, a proposta do rap não é falar de amor, é falar que você mora num barraco que pode cair quando chove, que está cansado de comer ovo com salsicha``, acredita Erivan.
Mas para outros nunca foi prioridade. O Sol que guia os rapazes do Costa a Costa é ``apenas`` a música, o som. A escolha por fazer uma mixtape, em 2007, por exemplo, é parte disso. ``Há uma limitação de quem não trata o rap como música, que a sua arte possa ser inserida socialmente como arte. A gente tem se dedicado a isso: ampliar os horizontes, buscando outros públicos, dialogando com eles, independente de cor, raça, condição social``, finaliza. (Julia Lopes)
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