
- "Pequim está sob construção, mas as pessoas mudaram completamente/ Quem é responsabilizado por toda essa confusão?/ Notícias noturnas de Pequim: você precisa tomar um remédio caro quando está doente/ mas você não tem dinheiro para comprar a receita cara no hospital/ Notícias noturnas de Pequim: corruptos estão por toda a parte, muitos psicóticos e surtados vão para as universidades ser professores/ Notícias noturnas de Pequim: eu não devolvo o dinheiro que peguei emprestado de você porque o colégio engana as pessoas cobrando por ensino grátis".
A letra acima, cantada em coro por muitos na casa de shows underground Yugong Yishan (acima) no fim de semana passado, é um refrão da música "Notícias noturnas de Pequim", um sucesso da banda chinesa IN3. Num país onde a mídia estatal é monopolizada pelo pop infantilizado e por baladas xarope sobre amores platônicos, o IN3 faz sucesso nas casas de shows de Pequim e na internet como uma banda de hip hop/rap chinês.

Hip hop/rap chinês? Pois trata-se do fenômeno musical que mais cresce na China hoje, música obrigatória de nove entre dez baladas em clubes chineses de classe média jovem e ritmo já devidamente apropriado por grandes nomes do pop, como o taiwanês Jay Chou, ou do rock, como Cui Jian, o cantor que, aliás, foi o pioneiro no uso de elementos de hip hop em suas músicas, ainda nos anos 80.
— É claro que o hip hop chinês não fala da realidade dos negros americanos ou de brigas de gangues ou drogas, porque isso não faz parte da vida dos jovens chineses — explica Cheizak, editor-executivo da revista de música Inmusic (ao lado) e produtor de bandas do setor. — Mas as letras não deixam de tocar em coisas que mexem com os jovens chineses hoje, como as diferenças de renda ou as mudanças rápidas do país.
Dos negros dos EUA ficou a aura de rebeldia e inconformismo que, antes, era exclusiva do rock e do punk feitos no país. Agora, é a vez do hip hop, que tomou de assalto os clubes das grandes cidades chinesas e a internet. De fato, nas casas onde os pequineses saem para dançar, como Bling, Vics, Richy, Cargo ou Lush, jovens vestidos em modelos que lembram jogadores de basquete americanos se sacodem ao som de artistas como Kanye West (que se apresenta ao vivo no estádio Fengtai, em Pequim, dia 25 de setembro), Jay-Z, 50 Cent, mas também ao ritmo de bandas chinesas de hip hop, como C.O.U., Dragon Tongue ou IN3.
Nas casas de show ao vivo como Yugong Yishan, Mao Live ou D22, já há noites cativas para o hip hop. E DJs e MCs tomaram de assalto as pistas, com noites disputadas a tapa e festas anunciadas na internet. Concursos de breakdancing se espalham por todas as cidades, com finais disputadas em palcos montados nas ruas de grandes cidades como Pequim, Xangai, Guangzhou ou Wuhan.

— A linguagem digital e visual da música negra americana tem muito mais visibilidade na internet chinesa do que o rock ou o pop ocidentais, que passam censurados nas grandes redes de TV ou nos rádios. — diz o MC Webber (ao lado), um dos que mais faz shows pela China. — Então acho que o ritmo do hip hop/rap, aliado à imagem de rebeldia, acabaram seduzindo mais os jovens chineses que o rock ou o punk, fenômenos ligados às gerações mais velhas.
Segundo Cheizak, a primeira fornada de bandas de hip hop na China saiu ainda em meados da década de 90, influenciada não apenas pelo hip hop americano, mas por chineses de Taiwan e Hong Kong que voltaram de viagens aos EUA e Europa e usaram ritmo e formato em músicas locais. São nomes como Li Xiao Long (China) ou LMF (Hong Kong). Para muitos, são produções consideradas toscas, mas revolucionárias por romperem com o cenário musical por-rock de então.

As gerações seguintes, da qual fazem parte bandas como Dragon Tongue (capa do CD acima), Yin Ts'ang (com MC Webber), C.O.U. (capa do CD abaixo), Gongfu ou IN3, já trazem elementos chineses para o hip hop, misturado a outros ritmos, como o reggae.
As letras expressam as perplexidades do jovem chinês hoje, sejam elas ingênuas ou mais sofisticadas (dependendo se a banda assinou com um selo ofocial e pode falar o que pensa literalmente): desejo por mais sexo, por liberdade de expressão, por emprego, por bebida. Ou seja, o hip hop chinês sofisticou-se.

— É por isso que decidimos não aderir a um grande selo, porque isso traz o problema da censura — diz Cheng Haoran, vocalista da banda IN3, cujo primeiro CD foi feito com recursos próprios, mas estourou na rede chinesa. Ele posa para a foto com uma imensa folha de maconha emoldurada num quadro. Usa cabelos em estilo rastafari (foto abaixo) — E eu não quero ficar falando de garotas dando mole ou sobre o trânsito de Pequim.

Nas lojas de DVDs e CDs piratas de Pequim, as seções de música ocidental estão repletas de CDs de hip hop americano, onde desfilam nomes como Snoop Dogg, Eminem, Pharrell Williams, todos devidamente censurados das TVs e rádios na China. Na internet chinesa, baixar qualquer música de qualquer artista desses é facílimo. Assim como as músicas de bandas de hip hop locais.
— Os artistas de hop hop internacionais não têm tanta visibilidade como os de música pop, então acho que por isso transitam com alguma liberdade na internet. As bandas locais são mais visadas, mas o pulo de gato é fazer uma letra inteligente que proteste sem chamar a atenção dos censores — explica Cheizak. — Quando a Björk gritou "Tibete!" no seu show, muitos acharam libertário, mas ela só fez fechar o mercado de shows para muitos artistas estrangeiros. No fim, foi uma lástima para todos.

Além do governo e da censura dos grandes selos, outra dificuldade intrínseca do hip hop chinês parece ser a língua. Com palavras de poucas sílabas e caracteres com quatro tons que precisam ser pronunciados de maneira correta para que possam ser entendidos, o mandarim não é exatamente uma língua amigável ao rap. O que faz as músicas usarem e abusarem de dialetos, como o cantonês ou o xangainês, para dar vida aos sons.
— As letras hoje são mais expressivas e musicais — diz MC Webber.
"Quando a cortina da noite cai sobre minha cidade/ A vida de outro tipo de pessoa está apenas começando/ Eles dormem durante o dia e não precisam trabalhar/ Eles odeiam ver TV ou surfar na internet/ Porque tudo é falso em todos os lugares/ Onde estão as coisas verdadeiras?/ Eu quero descobrir as coisas verdadeiras", diz a banda IN3 no início de "Notícias noturnas de Pequim" (no CD acima). O hip hop chinês é puro inconformismo.