Em 2006, o Mzuri Sana lançou seu début intitulado de “Ópera Oblíqua”, disco inspirado em Machado de Assis, genial escritor negro brasileiro responsável por grandes clássicos da nossa literatura como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba” e “Dom Casmurro”.
Parteum, integrante do grupo junto com Secreto e DJ Suissac, bateu um papo com mtv.com.br sobre o primeiro DVD do Mzuri Sana, sua carreira solo e gravadoras. “Deixaram de ver o artista como um produto apenas. O que elas podem mudar? Elas podem mudar tudo, mas o jogo nunca será o mesmo”.
- O Mzuri Sana está produzindo um novo álbum?
- Não, no momento estou gravando meu segundo álbum. Assim que mandar esse projeto para masterização, começo a gravar algo novo com o Mzuri Sana. Ambos, Secreto e Suissac, participam do meu disco, eles estão sempre por perto. O DVD do Mzuri Sana, Farpas Pregos Nuvens Orações, sai até novembro. Recebi o certificado da Ancine faz duas semanas. Classificação: LIVRE.
- O DVD foi dirigido por Cassio Bossert, um amigo de longa data, que decidiu documentar ensaios, shows, minhas sessões de skate e até mesmo o cotidiano do grupo. Aprendi um pouco sobre edição com o Cassio e o Jardel nesse período. Me animei com isso, comprei uma mini-DV, passei a postar videocasts meus no youtube. Não importa como olho para esse projeto, sempre há algo positivo para ser apontado. Estamos trabalhando nesse DVD desde 2003, mexemos muito na edição até chegarmos na versão final de 150 minutos. Cassio, se estiver lendo: Muito obrigado!
- O que vocês acharam da repercussão do primeiro disco?
- Achei que muita gente só entendeu o primeiro EP do Mzuri, Bairros Cidades Estrelas Constelações, quando meu disco-solo foi lançado. Já o Ópera Oblíqua, passou por cima da cabeça de muita gente. Falar do que a gente fala, em rap, divide opiniões. Alguns jornalistas não gostaram da aproximação com a obra de Machado de Assis, mas ao menos duas megastores criaram pacotes que uniam o disco a um livro de Machado. A relação com a música que fazemos e nossas crenças está mais afinada... O grupo vai fazer dez anos logo mais, acho que isso tem a ver com tudo o que absorvemos sobre nossa música de alguma forma.
- E sua carreira solo? Deve rolar algo este ano?
- Apesar da rotina em estúdio, fazendo trilhas, produzindo outros artistas, eu acho que está na hora de mostrar ao público o que tenho feito. Meu segundo disco-solo é ainda mais ambicioso que o primeiro. Tem cordas, eu toquei bateria em algumas faixas, piano... Vamos ver no que dá. Eu não costumo competir com ninguém (senão comigo). Se pensarmos que o meu primeiro álbum, Raciocínio Quebrado, foi lançado em 2005, e que eu nunca parei de gravar desde então, é possível perceber que tive bem mais tempo de estúdio pra maturar idéias, mexer nos arranjos.
- O que vc acha da atual situação das gravadoras? Tem jeito? O que elas podem mudar?
- Acho estranho, bem estranho. As gravadoras nunca admitiram o erro de investir numa única mídia por quase 15 anos, mas vai saber como se deu esse link entre fabricantes de eletrodomésticos e controladores de mídia lá no começo do jogo... O jeito é fazer o que algumas gravadoras e selos já estão fazendo. Deixaram de ver o artista como um produto apenas. Hoje é mais fácil fechar contratos que caracterizam uma sociedade, e não uma simples cessão de uso de fonogramas. O que elas podem mudar? Elas podem mudar tudo, mas o jogo nunca será o mesmo.
- Queria que você falasse um pouco sobre o cenário atual. Selos, lugares para tocar, público...
- Os últimos três shows do Mzuri Sana em São Paulo aconteceram no Clube Berlin em outubro do ano passado. Não há tantos lugares assim pra tocar, na real. Uma vez que você tocou nas principais festas da cidade, o melhor é expandir a operação, entende? Isso requer organização e muita força de vontade pra negociar com contratantes, gravadora, um manager que curte correr por pouco. Eu, Suissac e Secreto decidimos continuar ensaiando, escrevendo novos sons, eu tirei esse tempo pra cuidar da minha carreira de produtor também. O público cresceu um pouco, mas no suposto "rap alternativo" estão todos dividindo o mesmo espaço. Vejo a Mixtape/DVD do KL Jay, por exemplo, como um esforço para colocar todo mundo debaixo do mesmo guarda-chuva.
- Suas mixtapes são sempre bem faladas em blogs. Qual é a próxima que você está montando?
- Minha sexta mixtape, “Magus Operandi”, está quase pronta. Essa é a maneira que arranjei de mostrar o que estou fazendo entre um disco oficial e outro. O "mercado" está mudando bastante, mesmo na esfera independente. Talvez eu tenha que produzir as próximas mixtapes com a ajuda de um patrocinador, talvez eu tenha que produzir versões diferentes... Esse negócio de fazer tudo sozinho, de marketing à packaging, é complicado.
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